carlosrocha

Por carlosrocha

11h00

Quem matou Paulinha Abelha? Quando quem estabelece o padrão julga a ação

Uma morte que deixou uma legião de fãs órfãos. Uma voz incrível que se calou poucos dias após uma turnê de apresentações pelo país. A partida precoce de Paulinha Abelha, vocalista da banda Calcinha Preta, pegou todos de surpresa e tem levantado uma reflexão sobre uma pauta: o uso de medicamentos para emagrecer.

Antes de entrar no assunto, é importante fazer uma retrospectiva dos acontecimentos. Paulinha Abelha se sentiu mal após retornar de uma apresentação em São Paulo. Ela foi encaminhada imediatamente para uma unidade hospitalar em Aracaju, Sergipe. A artista já apresentava funções renais comprometidas.

Paulinha precisou ser internada e, poucos dias depois, apresentou comprometimento das funções neurológicas. A princípio, médicos mencionaram uma infecção, mas não havia presença de bactérias.

Para explicar o caso, um grupo de médicos que cuidaram de Paulinha concederam uma entrevista coletiva na véspera de sua morte. Na ocasião, eles detalharam que, de fato, havia inflamação mas o agente causador seria externo, provavelmente algum tipo de medicamento que o corpo da cantora rejeitou.

Paulinha Abelha tinha 43 anos e, segundo familiares e amigos, fazia uso de medicamentos para fins estéticos. A artista sempre apresentava-se linda e glamourosa, tanto que muitos chegaram a mencionar que pensavam que ela tivesse menos idade.

A morte de Paulinha Abelha repercutiu muito nas redes sociais, gerou muitas menções ao nome da cantora e algumas delas faziam referência à possível causa da morte.

Algumas pessoas passaram a questionar o porquê de uma mulher, ainda na flor da idade e tão bonita, fazia uso desse tipo de medicamento, que pode ter causado a sua morte.

A resposta não é muito difícil de encontrar. Basta uma breve reflexão sobre o que a sociedade atual vive e exige, principalmente de pessoas que trabalham com a imagem ou até mesmo com a sensualidade.

Vou ainda além, um diagnóstico sobre essa mesma sociedade pode ser feito até com anônimos que passam por um episódio trágico. Quem nunca ouviu uma frase de lamento durante um noticiário policial: “Poxa vida, tão jovem e bonita para morrer assim”. Nisso a gente consegue ler nas entrelinhas que a beleza se põe à mesa nas mais diversas áreas e acontecimentos envolvendo pessoas, até a morte. Parece algo bobo ou sem importância, mas esse tipo de pergunta acaba gerando outra: os não tão jovem e não tão bonitos deveriam morrer assim?

Voltando ao caso de Paulinha Abelha, uma artista famosa, que marcou uma geração, principalmente no Nordeste do país, com uma notoriedade até mesmo como influenciadora digital. Como é que ela deveria aparecer diante da sociedade com todos esses atributos? No universo da interatividade das redes sociais, será que Paulinha já chegou a ler comentários como: “Se cuida menina, você está ficando cheinha”, “Estou te achando inchada, você está grávida?”, “Está linda, diz qual teu segredo de beleza”. Paulinha Abelha tinha a tarefa de ser linda, afinal, tinha que satisfazer um público e, de certa forma, a si mesma.

Alguns leitores podem até estar achando um certo exagero, afinal, são “coisas tão pequenas”, comentários “tão inofencivos”, alguns até se apresentam como elogios. Mas são nessas pequenas coisas que a humanidade coloca pra fora o que, aos poucos, acaba adoecendo.

Um singelo exemplo é uma experiência que a apresentadora Karine Tenório, da TV Tambaú, SBT na Paraíba, compartilhou em suas redes sociais. Ela estava em uma padaria e a atendente mostrava uns doces. Ao reconhecê-la como apresentadora de TV, a balconista exclamou: “Nem posso estar oferecendo essas coisas”. Em seguida, a atendente deu uma dica de chá para emagrecimento.

 

É algo pequeno, mas traduz o posicionamento da sociedade diante de pessoas que estão em destaque ou sob a visão de muitos. Elas precisam ser perfeitas aos olhos de quem as assistem, seguem, buscam e admiram. Perfeição e padrões de beleza aceitáveis devem fazer parte do seu estilo de vida.

Outro ponto importante é que, a mesma sociedade que exige, acaba sendo a sociedade que julga quando algo foge dos trilhos. Após a morte de Paulinha e a suposição de que remédios para emagrecer podem ter causado a tragédia, boa parcela da sociedade tomou sua toga, seu martelo e os comentários passaram a ser: “Não sei como a pessoa se submete a tomar esse tipo de medicamento”, “fez mal a si mesma”, “falta de amor próprio, não se aceita”.

Quem matou Paulinha Abelha? Quantos ainda vão morrer, fisicamente ou não, escravizados por padrões tão difíceis de alcançar? Quantas pessoas com a autoestima assassinada por comentários “inofencivos”? Quanta crítica destrutiva disfarçada de opinião? Quem será a próxima vítima?

 





*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal T5.

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